Pela segunda vez, o Festival de Música de Setúbal integrou um simpósio internacional que considerou as dádivas da música de uma forma que não é a mais habitual. Music, Health and Wellbeing 2019 (Música, Saúde e Bem-Estar) decorreu entre domingo e esta segunda-feira. O seu tema genérico, conforme o nome indica, foram os efeitos psicológicos e fisiológicos da música numa variedade de situações difíceis. Desde aquelas que todos nós atravessamos mais cedo ou mais tarde até às que só alguns de nós teremos de sofrer, o espectro de problemas é muito grande, e as possibilidades de utilizações da música também.

Uma das comunicações mais interessantes, logo no primeiro dia, foi a de Nigel Osborne, um compositor britânico — mais precisamente, escocês, o que poderá não ser alheio ao seu envolvimento em atividades humanitárias, dada a antiga tradição dessa parte do Reino Unido em trabalho voluntário para melhorar o mundo. Há décadas que Osborne trabalha com crianças vitimas de conflitos armados. Começou com crianças bósnias, no início dos anos 90, expandindo-se depois para África e zonas diversas do Médio Oriente.

Os sintomas do trauma — incluindo a presença obsessiva de certas recordações, a visão negativa da realidade, a retração emocional e a hipervigilância — têm repercussões biofísicas que Osborne descreveu com algum detalhe, como descreveu o alívio que a música pode proporcionar.

A música não é apenas uma forma de permitir às crianças manterem-se em ligação com a sua identidade e a sua cultura (a terapia musical tende a ser feita com música dos seus países de origem). Também as ajuda a recuperar confiança e empatia, duas capacidades que o trauma tende a afetar gravemente. E experiências como cantar em grupo contribuem para fazer subir os níveis de oxitocina, uma hormona associada a sensações de prazer. Para não falar dos efeitos sobre o sistema nervoso, de que Osborne deu alguns exemplos sugestivos.

A utilização de música em pessoas que atravessam fases difíceis na vida, desde sem-abrigo a presos, passando por doentes em hospitais e pessoas institucionalizadas por motivos diversos, foi considerada por outros oradores. Em todos eles o saldo das experiências parece ter sido positivo, quanto mais não seja por permitir aos sujeitos ativarem capacidades adormecidas e lhes aumentar a autoestima.

O autismo é uma área privilegiada para a utilização de terapia musical. Outra, que foi bastante mais referida, é a demência. A musicoterapia tornou-se uma presença frequente em discussões sobre a resposta dos sistemas de saúde às questões da velhice, que são cada vez mais prementes. Um dos conferencistas, Lee Bartel (Univ. de Toronto, Canadá), apresentou resultados de estudos focados na doença de Alzheimer, bem como na dor, na depressão e na solidão. Uma das técnicas destacadas por a terapia sensorial rítmica.

Há meses, quando o parlamento britânico abordou a necessidade de melhorar o sistema de saúde mental no país, a musicoterapia foi um dos aspetos referidos. Assim explicou ao Expresso o diretor do Festival de Música de Setúbal, Ian Ritchie, que diz que este ano abordou vários responsáveis públicos portugueses para estarem no simpósio, mas nenhum respondeu – talvez por ainda não haver uma consciência forte do valor deste género de terapias no nosso país.

Para o festival, onde a ideia de inclusão social existe desde o início, o simpósio representou uma evolução natural. Se muitos dos participantes ainda vêm de fora, nomeadamente do Reino Unido, é devido à importância desse país na área. Grace Meadows, uma terapeuta musical que trabalha com grávidas no Chelsea and Westminster Hospital, em Londres, contou-nos como o seu trabalho com crianças utiliza música improvisada, que procura “ser guiado pelo seu dinamismo, a sua velocidade, o seu carácter”.

Numa criança com autismo, por exemplo, poder-se-á começar por acompanhar algum fragmento que ela repita obsessivamente, introduzindo depois pequenas variações que se encoraja a criança a seguir, regressando de vez em quando à melodia original e encorajando um dialogo. “A certa altura, o contacto visual aumenta e vemos toda a atitude dela a mudar”.

Em paralelo, Meadows é diretora do programa Music for Dementia 2020, que visa tornar a música acessível a todas as pessoas que vivem com demência até ao próximo ano. Mesmo sem demência, a música pode produzir um aumento da qualidade de vida na terceira idade. Desde logo, pela mera presença dela em ambientes onde a alternativa são ruídos desagradáveis.

Considerando a variedade de reações individuais à música (um ponto enfatizado por vários dos oradores), só convém que a seleção musical seja minimamente consensual.

Fonte: https://vidaextra.expresso.pt