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Pouca gente testemunhou tantos momentos cruciais do rock como Bob Gruen. Este fotógrafo norte-americano, hoje com 61 anos, viu o nascimento do punk, o Led Zeppelin no auge, os últimos anos de Elvis Presley, e fez com que os vários instantes importantes presenciados transmitissem a energia do gênero, sem precisar que a música fosse tocada.
Chegam ao Brasil 270 imagens produzidas pelas lentes de Gruen em uma exposição organizada pela Faap de São Paulo, em cartaz de 16 de maio a 1º de julho, com curadoria do cantor Supla. Outra chance de conferir o trabalho do fotógrafo é com o livro "Rockers" (mesmo nome da mostra), que está sendo lançado por aqui pela editora CosacNaify.
Gruen, que estará no Brasil para a abertura de sua exposição, diz que nunca sua obra recebeu um tratamento como o dado agora. Serão nove áreas com cinco trilhas sonoras diferentes, e divisões internas como "punk", "John Lennon" e "trabalhos recentes". Algumas das fotos terão até 5 metros de altura.
Confira a seguir o papo que o G1 teve com Bob Gruen, sobre seus 40 anos de carreira e as histórias "por-trás-das-câmeras" de algumas de suas fotos clássicas.
G1 - Como você começou a sua carreira?
Bob Gruen - Fotografia era o hobby da minha mãe. Quando eu era bem pequeno ela me levou para sua câmara escura, onde ela revelava suas fotos. E quando eu tinha oito anos, meus pais me deram um presente, a minha primeira câmera. E eu venho tirando fotos desde então. Quando estava no colegial eu fiquei amigos de alguns artistas e, depois desse tempo na escola, comecei a morar com uma banda de rock e fiz as fotos para eles enviarem a uma gravadora. A gravadora gostou do meu trabalho e fui fazendo uma sessão atrás da outra.
G1 - Algo impressionante é que você sempre pareceu a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo, e isso aconteceu várias e várias vezes. Qual é o segredo?
Gruen - Você pode pedir a Deus com muita oração [risos]. Eu não sei. Talvez seja um pouco de sorte ou eu ter uma boa intuição. Mas eu realmente parecia que eu estava no lugar certo, na hora certa.
G1 - E como você fazia para ganhar a confiança de tantas pessoas importantes no rock?
Gruen - Eu nunca tentava constranger o artista. E eu trabalhava com o artista. Gostava de mostrar o resultado do trabalho, para que eles escolhessem qual foto preferiam, porque eu queria que eles gostassem de mim e porque eu queria que eles me contratassem novamente. Então mostrava as melhores fotos para eles ou deixava que eles escolhessem uma imagem.
G1 - Dessa forma, você já se sentiu tentado a mostrar uma imagem não muito favorável de um artista, mas não pôde, por ter essa diretriz de trabalho?
Gruen - Às vezes. Mas eu nunca tirei fotos de pessoas se drogando. Nunca quis ser objeto de uma ação judicial. Não é meu trabalho fabricar provas [risos].
G1 - Você considera importante gostar da música de um artista para fazer uma boa foto?
Gruen - Isso ajuda [risos]. Você tem uma conexão melhor com o artista e você curte mais estar em uma sessão. Se eu não gosto da música, acaba sendo apenas mais um trabalho. Eu tento, com as minhas fotos, mostrar um pouco da paixão, um pouco do meu "feeling" por trás do que aconteceu. Acho que eu não sou um fotojornalista, que apenas registra os fatos. Eu gosto de dividir os meus sentimentos.
G1 - E qual momento especial você poderia destacar dessa relação com um artista?
Gruen - Quando você conhece bem um artista e se sente à vontade com ele, e ele se sente com você, há uma certa intimidade e isso é bom para o resultado final. Por exemplo, uma vez visitei Yoko Ono. E o filho dela com John Lennon, Sean, subiu na cama e ficou ao lado dela, com um rosto tão doce, numa pose tão natural. E como Yoko Ono me conhecia bem pude tirar uma foto. Um fotógrafo de imprensa numa cobertura regular não conseguiria isso.
G1 - Você poderia falar um pouco sobre três de suas imagens mais famosas [que estão ilustradas nesta reportagem]? Como foi o clima para a foto de John Lennon?
Gruen - Eu estava na cobertura de um prédio para fazer as fotos de um disco de Lennon, o "Walls and bridges". Depois dessas fotos, sugerimos que fizéssemos mais outras para publicidade. Havia dado uma camiseta com o nome da cidade de Nova York um ano antes da foto - ele costumava usar esse tipo de camiseta e eu comprei uma de presente. Perguntei a ele se ainda a tinha para fotos com a cidade por trás dele. Nunca imaginamos que ela se tornaria tão popular. E ele parece bem confiante e confortável na imagem.
G1 - E a de Sid Vicious ensangüentado?
Gruen - Foi durante um show em Dallas, em 1978. Um grupo de garotas chegou perto do palco, ele se abaixou para dizer oi e elas o esmurraram na cara. Ele começou a sangrar e ele começou a espalhar o sangue pelo corpo e a espirrá-lo nas meninas, que devolviam com cuspes.
Quando o sangue começou a secar ele pegou uma garrafa de cerveja quebrada e começou a se cortar no peito. Até que o empresário pegou em sua mão e disse "pare". Aí ele fez uma cara de como se fosse uma criança pega fazendo algo errado. A banda disse: "ei, Sid, você não está tocando o seu baixo". O que havia ocorrido é que ele tinha desligado o amplificador na hora em que quebrou a garrafa.
Eu fiquei muito surpreso, porque quando ele pegou a garrafa, ele estava sorrindo.
G1 - E finalmente a fotografia do Clash, em Boston.
Gruen - Eu acho que o Clash é a única banda que realmente importa. Eles eram os mais importantes e tinham mais o que falar do que os outros. As pessoas dizem que os Sex Pistols faziam as pessoas gritar. Mas era o Clash que dava uma razão para isso. Eu fotografei o Clash várias vezes e era algo muito poderoso. E naquela noite eu consegui capturar toda a energia deles, na hora certa. Eu tenho várias imagens do Clash, mas essa é a minha favorita. Todos estão bem nela, até o baterista ao fundo.
Rockers
Onde: Faap - Salão Cultural (r. Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo, tel. 11-3662-7200)
Quando: de 16 de maio a 1º de julho, de 3ª a 6ª, das 10h às 20h, e sáb., dom. e feriados, das 10h às 17h
Quanto: entrada franca
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