Marcos Valle é um dos artistas mais versáteis e criativos da música brasileira. Quando gravou seu primeiro disco, "Samba Demais", em 1964, tinha tenros 21 anos e já se lançava como um dos principais dos então novos nomes da bossa nova --era instrumentista, cantor, compositor e loiro surfista, e impressionava em todas as habilidades. Com suas composições, sempre favoritas do público, e seu ouvido perfeito para melodias e arranjos, ajudou na revolução que foi a bossa nova como música e como movimento --mas logo abandonou ambos. Na verdade, simplesmente deixou que suas outras influências também entrassem na equação e acabou lançando uma série de discos no começo dos anos 70 que são até hoje objeto de culto dos colecionadores que se dispõem a caçá-los, já que há muito estão todos fora de catálogo.
Com sua sonoridade pessoal, cheia de sofisticação e referências próprias, foi um dos primeiros músicos resgatados na cena européia de neo-bossa que surgiu no começo dos anos 90. Seus discos passaram a ser revalorizados, suas músicas tocadas em pistas de dança. Em pouco tempo, ele próprio estava gravando novos álbuns e viajando o mundo para se apresentar. Depois de um disco dedicado à bossa aqui e outro calcado no seu repertório instrumental acolá, em agosto de 2007 fez uma histórica temporada de shows na casa de shows carioca Cinemathèque com convidados. Agora, lança CD e DVD ao vivo "Conecta" com o resultado dos shows.
Em entrevista ao UOL, o músico fala sobre os lançamentos, os novos artistas que conheceu, a versatilidade de sua música e, é claro, sua relação com a bossa nova.
Uol: Uma das características de destaque desse show que agora vira CD e DVD é o som, mais rico que o habitual. Você toca mais o piano elétrico Fender Rhodes, por exemplo, que você costuma tocar muito lá fora mas nem tanto aqui.
Marcos Valle: Eu descobri o Rhodes quando gravei a trilha do "Vila Sésamo" e nunca mais larguei. Porque o Rhodes tem realmente muito a ver com meu ritmo, meu balanço. Então os shows que eu faço lá fora já têm esse formato, porque o meu público na Europa é muito jovem e exigente e já associa o Rhodes a mim. Seria quase uma decepção estética fazer um show lá sem ele. E a idéia desse show --e do CD/DVD-- era exatamente fazer shows aqui no Brasil com a mesma energia dos shows que faço lá fora.
Uol: Havia essa idéia de ir atrás de um público mais jovem?
Valle: Sem dúvida nenhuma. Eu já percebo que o meu público fica cada vez mais jovem, naturalmente acontece. Até por isso eu queria que as pessoas vissem aqui um show com a mesma energia dos que faço na Europa.
Uol: Desse mesmo impulso que nascem os encontros com os artistas mais jovens que participam do seu show, Marcelo Camelo, +2, Fino Coletivo?
Valle: Exato. E a idéia era que tudo soasse natural, nada soasse forçado. Acabou ficando legal, todo mundo que participa tem a ver comigo e entre si.
Uol: Você já os conhecia?
Valle: O Camelo eu conhecia de ler sobre ele, sabia que ele era sobrinho do Bebeto Castilho, gostava da música dele que a Maria Rita gravou, "Cara Valente". O +2 e o Fino Coletivo eu tinha ouvido uma música aqui, outra ali. Nas conversas sobre o projeto do show, quando surgiram os nomes deles é que fui ouvir com calma e gostei muito, vi que tinha muito a ver com o meu trabalho.
Uol: Uma das coisas mais legais do CD/DVD são as fusões de músicas suas com de convidados: "Nem Paletó Nem Gravata" se funde com "O Vencedor" do Marcelo Camelo (Los Hermanos) e "O Cafona" se funde com "Sincerely Hot", do Domenico Lancellotii (+2). Como nasceram essas fusões?
Valle: Quando eu liguei pro Camelo para convidá-lo a participar do show, ele foi muito empolgado, disse que era meu fã, conhecia todas minhas músicas. Depois, conversando, ele disse que adorava "Nem Paletó Nem Gravata" e que achava que tinha a ver com uma música dele, "O Vencedor". Eu ouvi, achei que realmente tinha muito a ver, e ele mesmo sugeriu de misturarmos as duas no show.
Uol: E com o Domenico?
Valle: Foi uma sugestão minha. Se não me engano, a idéia nasceu em um ensaio. Quando eu os conheci, eles me deram os discos. Quando eu ouvi eu gostei muito, e especialmente dessa música, "Sincerely Hot". Aí, quando estávamos tocando no ensaio, de repente eu pensei que tinha a ver com "O Cafona" e comecei a fazer umas vozes e cantar o começo, "eu quero ver, eu quero ver". Todo mundo adorou e foi assim.
Uol: Quando a bossa nova surgiu, você era bem novo. Você se ligou rápido naquilo? Como você via o movimento?
Valle: Eu via a bossa nova como uma estética muito boa do samba. Um samba com harmonia sofisticada. Quando eu ouvi o João Gilberto e vi aquela solução que ele tinha achado, fiquei muito ligado no que ele fazia. Era um ideal estético, uma maneira nova e interessante de tocar samba. O Tom Jobim já era ídolo, eu já adorava as coisas do Carlos Lyra e do Roberto Menescal. Mas no começo não via como um grupo do qual eu fazia parte, uma turma que eu participava. Eu gostava muito também do samba-jazz, que já era uma outra turma.
Uol: E como você passou a conhecer mais o pessoal e ser gravado e efetivamente fazer parte da turma da bossa?
Valle: Na época eu tinha um trio com o Edu Lobo e com o Dori Caymmi. Como o Edu é filho do jornalista e compositor Fernando Lobo, ele conhecia bastante gente. Então eu comecei a freqüentar as reuniões de bossa nova --a primeira que eu fui foi na casa do Ary Barroso, pra você ver como a bossa ainda estava ligada à música brasileira mais tradicional. E aí aconteceu que eu comecei a ir nas reuniões e mostrar minhas músicas. E o pessoal foi gostando, foi querendo gravar --o Simonal, o Tamba Trio.
Uol: Depois do seu começo na bossa nova, toda sua discografia é bastante heterogênea. Por que você acha que isso acontece? Você se considera um artista essencialmente da bossa nova?
Valle: A minha música sempre foi influenciada por muita música. Mesmo antes da bossa nova, eu já gostava de muita coisa --baião, jazz, música clássica, rock 'n' roll, música negra americana, sambão tradicional. Quando a bossa nova surgiu, eu já tinha tudo isso, então minha música nunca foi bossa pura. De vez em quando, é claro, ela cai numa coisa mais tranqüila, mas não é o que a define. Eu sempre fui inquieto, não era suficiente me sentir definido pela bossa nova. Então foi natural a minha música ir cada vez mais mostrando as minhas influências.
Uol: Dentro dessa sua discografia tão variada, tem algum disco seu próprio favorito?
Valle: Tem vários. Do primeiro, "Samba Demais", eu me lembro com muito carinho, exatamente por ter sido o primeiro. Gosto muito também do "Viola Enluarada", que eu gravei depois de voltar de um tempo morando nos Estados Unidos, então é um disco que eu fiz com saudade do Brasil. O "Garra" é um disco que eu gosto muito. O "Jet Set", que é instrumental, mais recente, também me deu muita alegria. E o novo, claro. |