No início do mais recente álbum do Counting Crows, "Saturday Nights & Sunday Mornings", o líder do grupo, Adam Duritz, canta que "eu só estou tentando me entender".
É uma busca que o cantor e compositor nascido em Maryland realiza desde que a banda despontou em 1991 em San Francisco, e provavelmente até antes. Ela resultou em um repertório de canções que são em sua maioria sérias, profundamente introspectivas e ocasionalmente torturadas, além de ricamente detalhadas, tanto nos arranjos quanto nas letras. Em "Mr. Jones" (1994), o primeiro single do Counting Crows, Duritz cantava que queria "ser Bob Dylan" e, se não realizou esta ambição um bocado alta, ele certamente conseguiu deixar sua marca como um artista corajoso e imperturbável.
Mas Duritz aumentou ainda mais as apostas com o lançamento de "Saturday Nights & Sunday Mornings", revelando uma desordem dissociativa previamente não mencionada que, diz o cantor de 43 anos, "faz o mundo parecer irreal --um pouco como um filme ao redor do mundo".
O músico, cuja mãe era psiquiatra e o pai era médico, disse que luta contra a condição há cerca de 25 anos, e passou por um período particularmente ruim após o álbum anterior dos Crows, "Hard Candy" (2002).
"A forma como me afeta varia", ele diz, "mas o fato é que, quanto mais as coisas parecem menos reais, mais você começa a se alienar e perder todo o contato com o mundo".
"Mas eu estou bem agora, apesar do problema ainda persistir. Provavelmente será uma coisa com a qual conviverei a vida toda, mas já tive vários graus de controle sobre ela. É assustador."
A vida errática de músico não facilita para lidar com a condição, é claro. Duritz, que atribui sua atual estabilidade a um regime de medicamentos ao qual chegou após testar cerca de 30 medicamentos diferentes, reconhece que seu problema foi exacerbado pela falta de assentamento que vem das turnês e outras viagens freqüentes, sem contar as alternâncias emocionais de se apresentar diante de grandes platéias e então voltar para o confinamento solitário do quarto de hotel ou ônibus de turnê.
"É algo que vem acontecendo desde que formamos a banda, mas eu não queria conversar a respeito, especialmente quando eu estava continuamente deteriorando. Conversar sobre doença mental é um tabu em nossa sociedade. Está melhorando, mais ou menos, mas ao falar a respeito você corre o risco de se transformar em um espetáculo público."
"Eu sou contrário à idéia de que devo algo a alguém, então falar sobre algo tão vergonhoso e embaraçoso e tão pessoal (...) eu não queria fazê-lo. Eu achava que isso não era da conta de ninguém."
O motivo para a revelação neste ano, diz o cantor e compositor, é que ele passou a sentir que seu silêncio estava prejudicando o Counting Crows.
Apesar da popularidade comercial da banda, com mais de 20 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo, seus críticos freqüentemente faziam ressalvas ao abandono e ansiedade presentes nas letras de Duritz.
"Nós já fomos bastante atacados, com coisas como: 'Do que ele está chorando? Ele é rico, famoso, um astro do rock, já dormiu com atrizes famosas' --grande parte disso é ficção, a propósito-- 'De que ele tanto se queixa?'", diz Duritz, que no passado já esteve ligado a atrizes como Jennifer Aniston e Courteney Cox, do seriado "Friends". "É compreensível. Todo mundo quer ser um astro do rock e aqui estou eu lamentando a respeito."
"Mas eu escrevo sobre como me sinto, só que sou julgado por este outro padrão que não leva em conta por que me sinto assim. Quero dizer, uma pessoa sente o que sente. Se você gosta do álbum, goste do álbum. Se não, tudo bem, mas como pode julgar como a vida é?"
"Minha música é honesta. Eu não posso culpar a mim mesmo por ser assim, mas não muda o fato de que teve um efeito sobre minha banda."
Duritz também foi induzido a ser franco sobre sua desordem pela natureza de "Saturday Nights & Sunday Mornings", que ele considera "o melhor álbum de nossa carreira". É certamente o mais direto, tão autobiográfico quanto sempre, mas o primeiro a explorar sua condição para inspiração para as letras.
O álbum de 14 faixas, ele diz, "trata de recuperação, mas em grande parte sobre o fracasso em se recuperar, o fracasso em suas tentativas de fazer as coisas para se recuperar. Mas não se trata realmente de fracasso, porque é isso o que você tem que fazer para viver".
Resumindo, ele diz, há mais dor e ansiedade --"Como não vou ser criticado por isso?"-- mas desta vez ele deixa as pessoas saberem de onde vem a dor.
"Eu pensei, 'eu não vou suportar outro álbum que todos não entendam'", diz Duritz.
"Saturday Nights & Sunday Mornings", que estreou em março em terceiro lugar na parada Billboard 200, é também um projeto conceitualmente ambicioso. Basicamente são dois álbuns combinados em um: "Saturday Nights" (noites de sábado), que se concentra no comportamento "pecaminoso", e "Sunday Mornings" (manhãs de domingo), sobre contrição, arrependimento e remorso. Cada conjunto de canções tem um produtor diferente e seu próprio clima sonoro distinto. Além dos membros do Counting Crows, amigos como Rayan Adams e David Lowery, do Cracker, contribuíram na composição.
O álbum foi gravado em duas sessões separadas, a primeira no início de 2006 e depois no início de 2007. Entre as sessões, Duritz teve uma crise séria, em grande parte em reação à morte de sua avó e uma separação amorosa. Mesmo assim, ele diz, o conceito do álbum não foi algo que planejava no início.
"Eu nunca componho dessa forma. Eu não sabia que 'Hard Candy' era um álbum sobre memória até que finalmente cheguei à faixa (título) final. E desta vez eu não vi este outro álbum, a parte 'Sunday Mornings', até já estarmos trabalhando em 'Saturday Nights'."
Duritz diz que ele e a banda não fizeram "nenhuma concessão" a respeito do álbum, mesmo quando executivos da gravadora e os empresários do grupo sugeriram fazer um álbum mais curto ou pelo menos distribuir as faixas de forma diferente, "para que as canções bonitas viessem primeiro".
Ele também brigou com a gravadora para lançar um single digital gratuito contendo duas canções, "1492" e "You Can't Count On Me". A banda também disponibilizou imagens suas para os fãs usarem em suas próprias versões de clipes para o YouTube de "You Can't Count On Me", quando ela foi lançada como single.
Com a execução em rádio "não confiável" e as vendas de discos convencionais em declínio, Duritz diz que a banda não tem alternativa a não ser explorar opções baseadas em Internet.
"A Internet facilita tudo. Nenhuma ferramenta que conecta cada indivíduo no mundo gratuitamente pode ser ruim. Nós estamos acordando. Nós a estamos usando."
Mas o Counting Crows não está abandonando os métodos convencionais de promoção, especialmente tocar ao vivo. O grupo planeja uma longa turnê pelo mundo para divulgar "Saturday Nights & Sunday Mornings", incluindo uma etapa norte-americana em que dividirá o palco com o Maroon 5.
É uma perspectiva, reconhece Duritz, que o deixa "com um pouco de medo deste ano".
"Eu não passei um ano sendo mal interpretado, mal compreendido, desdenhado (...) eu não fico longe de casa por um período tão longo. Eu não sei como vou suportar parte dessas coisas."
Mas apesar de sua ambivalência, ele diz, a música faz tudo valer o risco.
"Eu realmente quero fazê-lo. Eu adoro o álbum. Eu adoro estar na banda e nossas idéias estão dando resultados. No momento eu me sinto muito bem. Eu me sinto bastante resistente, então veremos com as coisas andarão." |